(...) [N]a
literatura culta – que o pobre não lê – ele não passa de figurante, sombra ao
fundo, intruso que se mete na conversa (...)[1]
(Joel Rufino dos
Santos).
Nos
tempos atuais o negro tem tido maior visibilidade e passa a ser autor de sua
própria história, sem intermediários, mas o que se percebe é que esse lugar de
atuação ainda é um tanto limitado, pois há, evidentemente, um movimento de
afirmação identitária que se dá através do fortalecimento das culturas e origens
do negro ao longo da história.
Há
uma sensação de que o escritor traz o personagem negro carregado de
estereótipos que o aprisionam num mesmo lugar: no futebol, na favela, no samba,
na malandragem, na pobreza... Qual o lugar do negro na sociedade e na literatura?
Em
Bichos da Terra tão Pequenos, de Joel
Rufino dos Santos – intelectual negro, empenhado em trazer para a literatura a
“voz” negra por tanto tempo silenciada – o personagem principal, apelidado
Vinquinho quando criança, era protagonista do meio onde vivia: em um lar pobre,
filho de mãe solteira, numa família evangélica, que usava a esperteza para se
“dar bem” em alguns momentos, enfim, o universo pelo qual circula é o que
historicamente foi destinado ao negro.
Espero
que esse período de afirmação da identidade negra se concretize e fortaleza a
ponto de o negro poder caminhar mais livremente pelos ambientes a ele negados
ao longo dos tempos. Que ele seja protagonista de sua história no morro, no
asfalto; no futebol, na magistratura; no samba, na música clássica e que as
fronteiras sejam derrubadas, caso contrário, “o sujeito-efeito que emerge
clandestinamente se assemelha bastante ao sujeito ideológico generalizado do
teórico”[2],
como ressalta Gayatri C. Spivak, sobre o perigo de uma simples inversão de papel, que, para mim, serve para atentar ao
perigo de se perpetuar as limitações impostas pelos aparelhos ideológicos a
serviço do Estado sobre o lugar do negro na sociedade.
Por
tudo isso, destaco aqui as considerações que Stuart Hall tece acerca das pessoas
que pertencem a culturas híbridas e
que precisam negociar com as muitas culturas a que tem contato, sem que, para
isso, perca o contato com suas tradições:
Elas carregam os
traços das culturas, das tradições, das linguagens e das histórias particulares
pelas quais foram marcadas. A diferença é que elas não são e nunca serão unificadas no velho sentido, porque elas
são, irrevogavelmente, o produto de várias histórias e culturas
interconectadas, pertencem a uma e, ao mesmo tempo, a várias “casas” (e não a
uma “casa” particular)[3].
Acho
que essas “várias casas” devem ter suas portas abertas ao mundo, sem que haja
nenhum tipo de impedimento que permita dizer ao mundo que o lugar do negro é
todo e qualquer lugar. Como Exu “desordeiro em nome da Ordem, personificação
(...) da dinâmica social, da existência individualizada etc.”[4],
que
“teve o direito
de se deslocar entre todos os deuses, entre estes e os mortais, entre os mortos
e os vivos, entre os homens uns com os outros, horizontalmente, entre seres da mesma
categoria; e, verticalmente, entre as diferentes categorias”. (SANTOS, 2010, p.
191)
A
ideia de pureza, em qualquer estrato social, parece incoerente porque, nas
palavras de Zygmunt Bauman:
A pureza (...) é
uma visão da ordem — isto é, de uma
situação em que cada coisa se acha em seu justo lugar e em nenhum outro. (...)
— que ocorre serem aqueles lugares que elas não preencheriam “naturalmente”
(...)[5].
E
o autor ainda enfatiza que “[o] oposto da “pureza” — o sujo, o imundo, os
“agentes poluidores” — são coisas “fora do lugar” (BAUMAN, 1998, p. 14).
Restando ao novo escritor negro mostrar qual é o seu lugar, para assim,
reafirmar a verdadeira identidade negra, livre das amarras que o prende a um
passado repressor.
[1] SANTOS, Joel Rufino dos. Épuras do Social – Como podem os
intelectuais trabalhar para os pobres. São Paulo: Global, 2004, p. 35.
[2]
Pode o subalterno falar?,
2010, pp. 25-26.
[3] HALL, Stuart. A identidade cultural na pós-modernidade.
Tradução Tomaz T. da Silva, Guaracira L. Louro – 11 ed. Rio de Janeiro:
DP&A, 2011, p. 89
[4]
SANTOS, Joel Rufino. Bichos da terra tão pequenos. Rio de
Janeiro: Rocco, 2010, p. 190.
[5]
BAUMAN, Zygmunt. O mal-estar da pós-modernidade. Rio de
Janeiro: Zahar, 1998, p. 14.
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