Em
seu livro Da Diáspora (2009), Stuart
Hall cita o conceito de “comunidades imaginadas” proposto por Benedict Anderson
e ressalta que: “[e]sta questão é central, não apenas para seus povos, mas para
as artes e culturas que produzem, onde um certo ‘sujeito imaginado’ está sempre
em jogo” (Hall, 2009, 26).
Pensando
nesse “sujeito imaginado” citado por Hall, tentarei analisar a
representatividade da mulher negra no que concerne às propagandas de
cosméticos, em especial, à de xampus.
A tentativa de qualificar o cabelo liso como sinônimo de beleza, de poder e o
crespo como sinônimo de fealdade e descuido, pode esbarrar no conceito de “pureza”
defendido por Bauman, em que:
(...) cada época e
cada cultura tem um certo modelo de pureza e um certo padrão ideal a serem
mantidos intactos e incólumes às disparidades. (...) Varrer o assoalho e
estigmatizar os traidores ou expulsar os estranhos parecem provir do mesmo
motivo de preservação da ordem, de tornar ou conservar o ambiente compreensível
e propício à ação sensata. (Bauman, 1998, 16)
Os
“traidores” mencionados por Bauman podem ser referenciados aos negros que se
orgulham em manter seus cabelos crespos, naturais, bem tratados, sem recorrer a
artifícios que encubram suas origens, pois,
[o] cabelo é um
marcante indício de procedência étnica, é um dos principais elementos
biotipológicos na construção da pessoa na cultura. O negro quando assume o seu
cabelo de negro assume também o seu papel na sociedade como uma pessoa negra. E
ser negro no Brasil e no mundo, convenhamos, é ainda um duro caminho trilhado
por milhares de afrodescendentes. (Lody, 2004, 125)
Estamos
vivenciando a “febre” do alisamento dos cabelos, o que provocou um grande
aquecimento nas indústrias de cosméticos e na fabricação de “pranchas”
alisadoras que, embora tragam alguns efeitos indesejados como a perda de cabelo
ou sua queima, entre outros danos, a mulher moderna acaba assumindo tais riscos
em busca da beleza compartilhada.
Essa
vontade de transformar o cabelo já data de muito tempo e Lody nos clarifica:
Em décadas passadas
era comum as mulheres negras usarem ferro de alisar cabelo. Um ritual que se
iniciava com o aquecimento do ferro diretamente no fogo e, em seguida, um tipo
de gordura de coco ou banha animal facilitava o alisamento. (Lody, 2004, 125)
Essa
não-aceitação do corpo negro se dá pelo intenso processo discriminatório pelo
qual a população afrodescendente vem passando desde a escravidão. Não se
pretende aqui fazer julgamentos de valor sobre a mulher negra que deseje ter
seus cabelos modificados com o intuito de sentir-se bem, consciente de seu
papel na sociedade, pois, fazer qualquer movimento no sentido de impedi-la ou
recriminá-la por usar seus cabelos alisados parece ser uma forma de
descredenciá-la a agir sobre seu próprio corpo.
Até
mesmo linhas criadas especificamente para atender ao público negro, como a AmaciHair, da Embelleze, tem como garota-propaganda uma atriz negra, a Juliana
Alves, que estampa as embalagens do produto com os cabelos devidamente
alisados. Segue abaixo a propaganda para a linha de tratamento AmaciHair Liso:
AmaciHair Liso
AmaciHair é a
primeira guanidina do Brasil, o sistema de relaxamento e amaciamento e
alisamento de efeito natural que é sucesso entre as brasileiras. Nas versões:
Tradicional, Ômega Plus, Liso e Óleo de Argan, AmaciHair é um produto versátil
que dá liberdade para a mulher brasileira ousar e se transformar como quiser.
Mesmo
um produto criado para cuidar dos cabelos crespos, não tem nenhuma intenção de
desenvolver técnicas que mantenham o aspecto natural, como os cabelos afros que se vê pelas ruas. Cabelos
carregados de simbologia e atitudes de preservação da origem africana no
Brasil.
Se
à mulher branca é facultado ter os cabelos louros, ruivos, negros; lisos,
ondulados, crespos; por que não a mulher negra optar pela cor ou pelo aspecto
liso, ondulado ou afro de seus
cabelos? Não se quer aqui ditar que tipo de cabelo a mulher negra deve ou não
usar, pois tal atitude cairia no perigoso terreno de reservar a ela um espaço
predeterminado de onde as negras devem estar e é justamente esta atitude que
queremos questionar a fim de entender os mecanismos que movem as indústrias
cosméticas brasileiras.
Bibliografia
BAUMAN, Zygmunt. O mal-estar da pós-modernidade (1998). Rio de Janeiro: Zahar.
HALL,
Stuart. Da Diáspora: identidades e
mediações culturais (2009). Organização Liv Sovik; Tradução Adelaine La
Guardia Resende... [et al]. Belo Horizonte: Editora UFMG.
LODY, Raul Giovanni da Motta. Cabelos de axé: identidade e resistência
(2004). Rio de Janeiro: Ed. Senac Nacional.
QUEIROZ, Renato da Silva (Organizador). O Corpo do Brasileiro: estudos de estética
e beleza (2000). São Paulo: Editora SENAC São Paulo.
