domingo, 19 de maio de 2013

Fazendo a cabeça das mulheres: a influência das propagandas de xampu na constituição do padrão estético brasileiro


Em seu livro Da Diáspora (2009), Stuart Hall cita o conceito de “comunidades imaginadas” proposto por Benedict Anderson e ressalta que: “[e]sta questão é central, não apenas para seus povos, mas para as artes e culturas que produzem, onde um certo ‘sujeito imaginado’ está sempre em jogo” (Hall, 2009, 26).
Pensando nesse “sujeito imaginado” citado por Hall, tentarei analisar a representatividade da mulher negra no que concerne às propagandas de cosméticos, em especial, à de xampus.
A tentativa de qualificar o cabelo liso como sinônimo de beleza, de poder e o crespo como sinônimo de fealdade e descuido, pode esbarrar no conceito de “pureza” defendido por Bauman, em que:

(...) cada época e cada cultura tem um certo modelo de pureza e um certo padrão ideal a serem mantidos intactos e incólumes às disparidades. (...) Varrer o assoalho e estigmatizar os traidores ou expulsar os estranhos parecem provir do mesmo motivo de preservação da ordem, de tornar ou conservar o ambiente compreensível e propício à ação sensata. (Bauman, 1998, 16) 

Os “traidores” mencionados por Bauman podem ser referenciados aos negros que se orgulham em manter seus cabelos crespos, naturais, bem tratados, sem recorrer a artifícios que encubram suas origens, pois,

[o] cabelo é um marcante indício de procedência étnica, é um dos principais elementos biotipológicos na construção da pessoa na cultura. O negro quando assume o seu cabelo de negro assume também o seu papel na sociedade como uma pessoa negra. E ser negro no Brasil e no mundo, convenhamos, é ainda um duro caminho trilhado por milhares de afrodescendentes. (Lody, 2004, 125)

Estamos vivenciando a “febre” do alisamento dos cabelos, o que provocou um grande aquecimento nas indústrias de cosméticos e na fabricação de “pranchas” alisadoras que, embora tragam alguns efeitos indesejados como a perda de cabelo ou sua queima, entre outros danos, a mulher moderna acaba assumindo tais riscos em busca da beleza compartilhada.
Essa vontade de transformar o cabelo já data de muito tempo e Lody nos clarifica:

Em décadas passadas era comum as mulheres negras usarem ferro de alisar cabelo. Um ritual que se iniciava com o aquecimento do ferro diretamente no fogo e, em seguida, um tipo de gordura de coco ou banha animal facilitava o alisamento. (Lody, 2004, 125)

Essa não-aceitação do corpo negro se dá pelo intenso processo discriminatório pelo qual a população afrodescendente vem passando desde a escravidão. Não se pretende aqui fazer julgamentos de valor sobre a mulher negra que deseje ter seus cabelos modificados com o intuito de sentir-se bem, consciente de seu papel na sociedade, pois, fazer qualquer movimento no sentido de impedi-la ou recriminá-la por usar seus cabelos alisados parece ser uma forma de descredenciá-la a agir sobre seu próprio corpo.
Até mesmo linhas criadas especificamente para atender ao público negro, como a AmaciHair, da Embelleze, tem como garota-propaganda uma atriz negra, a Juliana Alves, que estampa as embalagens do produto com os cabelos devidamente alisados. Segue abaixo a propaganda para a linha de tratamento AmaciHair Liso:

AmaciHair Liso


AmaciHair é a primeira guanidina do Brasil, o sistema de relaxamento e amaciamento e alisamento de efeito natural que é sucesso entre as brasileiras. Nas versões: Tradicional, Ômega Plus, Liso e Óleo de Argan, AmaciHair é um produto versátil que dá liberdade para a mulher brasileira ousar e se transformar como quiser.

Mesmo um produto criado para cuidar dos cabelos crespos, não tem nenhuma intenção de desenvolver técnicas que mantenham o aspecto natural, como os cabelos afros que se vê pelas ruas. Cabelos carregados de simbologia e atitudes de preservação da origem africana no Brasil.

Se à mulher branca é facultado ter os cabelos louros, ruivos, negros; lisos, ondulados, crespos; por que não a mulher negra optar pela cor ou pelo aspecto liso, ondulado ou afro de seus cabelos? Não se quer aqui ditar que tipo de cabelo a mulher negra deve ou não usar, pois tal atitude cairia no perigoso terreno de reservar a ela um espaço predeterminado de onde as negras devem estar e é justamente esta atitude que queremos questionar a fim de entender os mecanismos que movem as indústrias cosméticas brasileiras. 

Bibliografia

BAUMAN, Zygmunt. O mal-estar da pós-modernidade (1998). Rio de Janeiro: Zahar.
HALL, Stuart. Da Diáspora: identidades e mediações culturais (2009). Organização Liv Sovik; Tradução Adelaine La Guardia Resende... [et al]. Belo Horizonte: Editora UFMG.
 LODY, Raul Giovanni da Motta. Cabelos de axé: identidade e resistência (2004). Rio de Janeiro: Ed. Senac Nacional.
QUEIROZ, Renato da Silva (Organizador). O Corpo do Brasileiro: estudos de estética e beleza (2000). São Paulo: Editora SENAC São Paulo.

As diversas maneiras de representação literária


Trazer para a sala de aula uma variedade de linguagens pode ser uma possibilidade de oferecer ao aluno condições de contato com autores que dominam a norma culta e outros que, mesmo sem dominá-la, conseguem retratar realidades vividas em forma de poesias, romances, música etc., como podemos observar nas obras de Graciliano Ramos[1] e Patativa do Assaré, por exemplo:

(...) [A] fome apertara demais os retirantes e por ali não existia sinal de comida. Baleia jantava os pés, a cabeça, os ossos do amigo, e não guardava lembrança disto. (RAMOS, 2011, p. 38)

Neste pequeno trecho de Vidas Secas, Graciliano Ramos se utiliza da erudição para falar do flagelo da fome em que as famílias do sertão nordestino passam ao longo do tempo.
Por outro lado, Patativa do Assaré[2] viveu a fome, de fato, no sertão cearense e, através da linguagem popular, contava em versos suas experiências, fazendo críticas ao sistema, como podemos perceber no trecho do poema feito à sua filha, Nanã, que faleceu por conta da má alimentação:
(...)
Ao pobre farta feijão,
Farinha, mio e arrôis.
Foi isso que aconteceu:
A minha fia morreu,
Na sêca de trinta e dois.[3]
  
Temos aí um exemplo de que é possível falar acerca de um mesmo enunciado, como a fome, utilizando a linguagem formal e a informal, sem que se perca a beleza da obra. Fazer com que os alunos conheçam e comparem obras tão distintas e próximas, ao mesmo tempo, seria um estímulo para a reflexão sobre a língua e a sociedade. Abaixo seguem as imagens de um clássico de nossa literatura em relação com o autor Patativa do Assaré[4].







[1] Figura 1: Caricatura Graciliano Ramos, retirada do site http://www.graciliano.com.br/vida_albumcaric.html. Acesso em 10/09/12
[2] Figura 2: Charge Patativa do Assaré, retirada do site http://vidapatativadoassare.blogspot.com.br/. Acesso em 10/09/12
[3] Trecho do poema A morte de Nanã. Muitos sites trazem versões diferentes da obra de Patativa do Assaré, com textos corrigidos, porém, optamos pela versão que traz seus “erros” gramaticais, pois foi assim que o autor foi aclamado pelo mundo e recebeu as mais diversas honrarias.
[4] Figura 3 Capa do filme Vidas Secas, retirada do site http://dicasgratisnanet.blogspot.com.br. E a família de Patativa do Assaré (D. Belinha, os filhos e Patativa). Retirada de http://vidapatativadoassare.blogspot.com.br/. Acesso em 10/09/12