Eutanázio em "Chove nos campos de Cachoeira"
Adiando os minutos para terminar o Chove. Não gostaria de deixar Eutanázio
na minha frágil memória, apenas. Eutanázio, aliás, até o momento, foi o
personagem que mais me causou estranhamento. Personagem instigante, sombrio,
denso... A narrativa de Dalcídio Jurandir transcorre de maneira linear, dentro
de certa naturalidade, até que surge uma pulsação forte na presença ascética de
Eutanázio, este que busca a cura para seu sofrimento constante, suas angústias
diante da vida por vias tortuosas. Implora, clama por socorro. Alguém que tenha
a coragem de desligar os aparelhos de uma vida dolorosa.
Eutanázio busca no desamor de Irene, no
mal-estar da casa de seu Cristóvão, nas humilhações diárias e perversas o
sentido de um viver fadado à dor, à rejeição, ao descaso.
Há neste homem a vontade de gritar,
quebrar a cara de quem lhe contraria, mas não tem coragem suficiente. Não tem
coragem para desligar os fios que o mantém vivo. O máximo que consegue é se
violentar mais, no desejo de manter-se podre, ao buscar em Felícia o sentimento
de generosidade, de piedade. Mesmo que fosse
(...) [u]ma vingança contra si mesmo. Uma sede de degradação. (...) [T]eria de lutar contra a moléstia, seria agoniado e doloroso e Irene voltaria com um sabor de pus e sangue de Felícia, das feridas de Felícia. Afinal tinha apodrecido o seu orgulho e o sexo. (JURANDIR, 2011, p. 128)[1]
Eutanázio “engolia palavrões, raivas, nojos, as grandes náuseas de si mesmo”[2]. Vivia um conflito consigo mesmo e com o mundo.
Felícia, a doença carnal, na qual
Eutanázio encontrou um porto ou um meio de abreviar a sua dor, compartilhando
da possível doença da mulher que “cheirava a terra úmida, a terra dos caminhos
pisada por todos os caminhantes”[3]:
Eutanázio, com
pena, sentiu que ela não sabia mesmo se estava contaminada ou não. Mas ele
tinha vindo da casa de Irene como um homem perdido. Se entregou à Felícia para
corromper-se mais, e seria humilhar a pobre mulher se não ficasse com ela. Era
degradá-la ainda mais. (JURANDIR, 2011, p. 25)
Irene, a doença da alma, que se instalou
nele sabe-se lá quando e, desde então, vem o devassando. Irene é o vício de
Eutanázio, a droga que o mantém respirando. Ele precisa da indiferença e
repugnância dela:
Demônio, como coisa irreparável, acontecimento inevitável, caldeirão do mal, era Irene, sim. (...) Irene o abateu, cega e violenta como redemoinho. Tinha sido atingido por essa força da natureza que, no íntimo, era tranqüila e inocente. Irene era o caos dentro dele. (JURANDIR, 2011, p. 127)
E assim, vivia em sua morte lenta,
constante. Talvez
Eutanázio precisasse de um carocinho de tucumã, como o de Alfredo. A “[b]olinha
mágica e infatigável”[4],
que fazia as feridas cicatrizarem e que transformava mundos.
[1] JURANDIR, Dalcídio. Chove nos campos de Cachoeira. Rio de
Janeiro: 7Letras, 2011.
[2] JURANDIR, 2011, p. 22
[3] Idem, p. 25
[4] JURANDIR, 2011, p. 134
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