sexta-feira, 2 de agosto de 2013

O entre-lugar do poeta modernista na construção de um mundo moderno


Pretendo abordar a escrita melancólica que, se poderia dizer, faz parte de um certo fazer literário compartilhado entre vários escritores contemporâneos a Drummond, o que Reinaldo Marques aponta como “a existência de uma Minas Gerais melancólica, ruminando ensimesmada seu passado e interrogando angustiada seu futuro”[*]. Sobre tal melancolia, imaginamos certo desconforto do poeta no seu tempo presente. E é esse entre-lugar do poeta que buscamos abordar, analisando, sobretudo, alguns poemas da obra Sentimento do Mundo e A Rosa do Povo, além de traçar diálogo com o artigo “Outros Espaços”, de M. Foucault.
Publicado em 1940, Sentimento do Mundo parece revelar certa insatisfação de Carlos Drummond de Andrade quanto ao presente que se desenha em sua forma moderna e que, de certa maneira, o chama a participar da construção de uma identidade nacional, fato que, a meu ver, foge das intenções do poeta que, ao contribuir para a fundação do Movimento Modernista, tinha como objetivo romper com uma tradição, que envolvia a pretensão do Romantismo de forjar tal identidade.
Reinaldo Marques destaca um dos possíveis sentimentos que angustiam a vida do poeta melancólico:

O mundo moderno quer o poeta cada vez mais personagem público, a ser exposto na cena pública, assunto para as colunas sociais. Perseguem-no a política, as máquinas fotográficas, a imprensa, os automóveis. (Cf. Reinaldo Marques, p. 53) 

Parece que essa modernidade tecnicista e, de certa forma, política se afasta do ideal dos escritores que imaginavam uma modernidade de pensamentos, uma ruptura com o que estava exposto, o modernismo da alma; no entanto, o presente se mostrava como um aprisionamento provocado pela modernidade como estética, objeto e seus poetas como escravos dela, quando o que se pretendia, desde o início, era a liberdade – política e ideológica. Daí uma escrita melancólica compartilhada principalmente pelos escritores mineiros, que acreditavam poder mudar o mundo com seus ideais libertários. Em “A flor e a náusea” pode-se perceber um pouco dessa melancolia em relação à cidade:

Vomitar esse tédio sobre a cidade.
Quarenta anos e nenhum problema
resolvido, sequer colocado.
Nenhuma carta escrita nem recebida.
Todos os homens voltam para casa.
Estão menos livres mas levam jornais
e soletram o mundo, sabendo que o perdem.

É como se a obra de Drummond utilizasse, em certa medida, a “utopia do espelho”, definida por Foucault como “um lugar sem lugar”, já que no espelho “eu me vejo lá onde não estou, em um espaço irreal que se abre virtualmente através da superfície, eu estou lá longe, lá onde não estou” (Foucault, 415). Seria uma sensação de não pertencimento a um lugar que perdeu sua essência ao crescer demais. Segundo hipótese de Reinaldo Marques, “um distanciamento crítico em relação a uma racionalidade moderna abstrata e totalizante, instrumental e técnica, atuante num espaço periférico” (Marques, p. 49).
Lélia Coelho Frota – ensaísta, poeta e historiadora de arte – analisando as correspondências entre Drummond e Mário de Andrade, no ciclo de conferências em homenagem ao Centenário do nascimento de Carlos Drummond de Andrade* – ressalta que 

o poeta mineiro não cessará de urdir, sabendo-não-sabendo, como é inerente à criação artística, o seu conflito de estar-no-mundo. (...) Mário repara na luta entre o poeta, - “que é um ser de ação pouca, muito empregado público, como ele mesmo o descreveu, - e as exigências da vida social contemporânea que já vai atingindo o Brasil das capitais, o ser socializado, de ação muita, eficaz pra sociedade, mais público que íntimo, com maior raio de ação que o cumprimento do dever na família e no empreguinho”. (Frota, 94)

As palavras de Lélia misturadas às de Mário podem sugerir esse entre-lugar do poeta que, menos contundente do que Mário de Andrade, acredito que esse “conflito de estar-no-mundo” se configuraria mais em uma decepção em ver que o ideário modernista não poderia ser concretizado em todo o seu esplendor, já que a vida real se apresentaria de outra forma e alienar-se dela em uma totalidade seria impossível.
Talvez essa mudança de perspectiva possa ter relação com o poema Confidência do Itabirano:

Tive ouro, tive gado, tive fazendas.
Hoje sou funcionário público.
Itabira é apenas uma fotografia na parede.
Mas como dói!

Possivelmente o poema referido trata mais especificamente de uma tentativa de fuga do sofrimento, que não está no lugar, mas na alma do poeta melancólico que mesmo afastando-se de sua cidade natal, permanece desassossegado, porém, a ideia de que no início ele era um poeta rico em seus pensamentos, em sua liberdade criadora, na tentativa de rompimento com as estruturas impostas pela sociedade e agora se torna um poeta pobre, um “funcionário público” por estar a serviço de uma construção identitária, que, de certa forma, o engessa em suas atitudes e exige certa adaptação à regra.
Mais uma vez recorro ao texto de Reinaldo Marques, já que, talvez, o sentimento de desgosto se dê “quanto aos rumos do poeta num mundo de relações mecânicas, num mundo caduco, a inviabilizar um projeto de autêntica comunicação e comunhão da poesia com o seu tempo, com os seus destinatários, com o povo” (Marques, 53).
Podemos concluir neste breve trabalho que Drummond seria a “flor que nasceu na rua!”, que fez da melancolia seu protesto, sua forma de questionar os poemas pobres, a vida vazia. O poeta fora de seu tempo, capaz de aliar melancolia e esperança num só poema, pois

Uma flor nasceu na rua!
Passem de longe, bondes, ônibus, rio de aço do tráfego.
Uma flor ainda desbotada
ilude a polícia, rompe o asfalto.
Façam completo silêncio, paralisem os negócios,
garanto que uma flor nasceu.

 Para finalizar, ficamos com uma observação de Otto Maria Carpeaux (O Jornal, 10 de outubro de 1943) que sinaliza que Drummond faz “a poesia do tempo presente, transformando qualquer ‘assunto’ em matéria poética, não é exclusiva, é inclusiva. Transforma tudo em conceito poético” (Frota, 97)


[*] MARQUES, Reinaldo. Minas Melancólica: poesia, nação, modernidade.  Publicado na Revista do Centro de Estudos Portugueses (FALE/UFMG, v. 22, n. 31, jul.-dez. 2002), p. 48
* Realizado na Academia Brasileira de Letras, com a participação de Carlos Nejar, Afonso Arinos de Mello Franco, entre outros.

Epidemia

(Ridson)

Parte III

“Jornal Nacional”, a chamada anuncia a notícia:
Manifestantes entram em confronto com a polícia.
Eles tinham faixas e palavras de ordem.
Contra gás lacrimogêneo, cassetetes, tropas de choque.

Só que a câmara filmou só a revolta e a reação .
De quem no desespero atira pedra em vão.
E no bloco seguinte o que se viu, ouviu:
“Pesquisa prova: desemprego diminui no Brasil.”

Guetofobia: o poder intimida.
Chacinas na periferia cometidas pela polícia.
Manifestações pacíficas reprimidas na Paulista.
Difamações, mentiras pela tevê transmitidas.

Terrorismo: crime considerado hediondo.
Ato válido somente quando atinge o povo.
Promotor burguês censura a verdade.
Porque a função da televisão é a produção de fugas da realidade.

É do meu olhar que você tem medo.
Bonito terno, onde vive se escondendo.
Eu vi você erguer o vidro, acelerando.
Quase atropela o moleque trabalhando.

A pressão sobe, o coração acelera.
Alergia a pobre, pavor da favela.
Pesadelos, pânicos, inquietações, insônia.
Guetofobia: estes são os teus sintomas.

Ignoram as crianças viciadas e marginais.
Depois vão pras ruas em passeatas. “BASTA, EU QUERO PAZ.”
Paz morar longe de sem-teto.
Proteger o domínio no condomínio sem favela perto.

Que tem como herói um coronel Ubiratan.
Aprecia confortável nosso diário Vietnã.
Cães acostumados a apontar se farejam medo.
Entram em desespero, quando sentem o próprio cheiro.

Burguesia aplaude nossa calamidade.
São contra os direitos humanos, porque não têm humanidade.
Sua tolerância zero, limpeza social, justiça.
Sob a luz no meu verso, enxergo suas feições nazistas.

Da destruição de Palmares à ditadura militar.
Massacre do Carandiru, Eldorado dos Carajás.
O dinheiro comanda a execução sumária.
Esquadrões da morte, chacina da Candelária.

Sua idéia de paz é diferente da minha.
Sua paz inclui a escravidão da minha família.
Com o meu silêncio, meu consentimento.
Meu confinamento dentro de um gueto.

A paz que eu não aceito e rejeito é a paz dos guetos.
A paz capaz de te obrigar a ignorar o olhar de preconceito.
Aquela paz imposta por viaturas da ROTA.
Paz de escravos, paz de gente morta.

Mansões, reuniões, festas, drinks, caviar.
E na favela, nos barracos, algo começa a mudar.
O filho mostra à mãe o que ela nunca percebeu.
Porque nunca teve a oportunidade, não leu, não aprendeu,

A guerra prolifera, o levante da favela.
Não é uma ameaça, é uma promessa.
Promessa de terror, horror, incêndio.
Por isso, playboy, tenha medo.

É a saga do povo que agora se repete.
Onde houver injustiça sempre haverá um rebelde.
Eles têm medo de nós porque somos a maioria.
A burguesia sofre de guetofobia.

Extremamente, centro de terapia intensiva.
Tratamento de choque contra guetofobia.
Bisturi da cirurgia sem anestesia.
Extirpa o câncer da sua covardia, burguesia.

Literatura Marginal: talentos da escrita periférica (2005: 78-80).  

“Ridson Mariano da Paixão mora na favela do Jaqueline, na cidade de São Paulo, e pertence à família Extremamente, movimento de cordel urbano”.