Pretendo abordar a escrita melancólica que, se poderia dizer, faz parte de um
certo fazer literário compartilhado
entre vários escritores contemporâneos a Drummond, o que Reinaldo Marques
aponta como “a existência de uma Minas Gerais melancólica, ruminando
ensimesmada seu passado e interrogando angustiada seu futuro”[*]. Sobre
tal melancolia, imaginamos certo desconforto do poeta no seu tempo presente. E
é esse entre-lugar do poeta que buscamos abordar, analisando, sobretudo, alguns
poemas da obra Sentimento do Mundo e A Rosa do Povo, além de traçar diálogo
com o artigo “Outros Espaços”, de M. Foucault.
Publicado em 1940, Sentimento do Mundo parece revelar certa
insatisfação de Carlos Drummond de Andrade quanto ao presente que se desenha em
sua forma moderna e que, de certa maneira, o chama a participar da construção
de uma identidade nacional, fato que, a meu ver, foge das intenções do poeta
que, ao contribuir para a fundação do Movimento Modernista, tinha como objetivo
romper com uma tradição, que envolvia a pretensão do Romantismo de forjar tal
identidade.
Reinaldo Marques destaca
um dos possíveis sentimentos que angustiam a vida do poeta melancólico:
O mundo moderno quer o poeta cada vez
mais personagem público, a ser exposto na cena pública, assunto para as colunas
sociais. Perseguem-no a política, as máquinas fotográficas, a imprensa, os
automóveis. (Cf. Reinaldo Marques, p. 53)
Parece que essa
modernidade tecnicista e, de certa forma, política se afasta do ideal dos
escritores que imaginavam uma modernidade de pensamentos, uma ruptura com o que
estava exposto, o modernismo da alma; no entanto, o presente se mostrava como
um aprisionamento provocado pela modernidade como estética, objeto e seus
poetas como escravos dela, quando o que se pretendia, desde o início, era a
liberdade – política e ideológica. Daí uma escrita melancólica compartilhada
principalmente pelos escritores mineiros, que acreditavam poder mudar o mundo
com seus ideais libertários. Em “A flor e a náusea” pode-se perceber um pouco
dessa melancolia em relação à cidade:
Vomitar esse tédio sobre a cidade.
Quarenta anos e nenhum problema
resolvido, sequer colocado.
Nenhuma carta escrita nem recebida.
Todos os homens voltam para casa.
Estão menos livres mas levam jornais
e soletram o mundo, sabendo que o
perdem.
É como se a obra de
Drummond utilizasse, em certa medida, a “utopia do espelho”, definida por
Foucault como “um lugar sem lugar”, já que no espelho “eu me vejo lá onde não
estou, em um espaço irreal que se abre virtualmente através da superfície, eu
estou lá longe, lá onde não estou” (Foucault, 415). Seria uma sensação de não
pertencimento a um lugar que perdeu sua essência ao crescer demais. Segundo
hipótese de Reinaldo Marques, “um distanciamento crítico em relação a uma racionalidade
moderna abstrata e totalizante, instrumental e técnica, atuante num espaço
periférico” (Marques, p. 49).
Lélia Coelho Frota –
ensaísta, poeta e historiadora de arte – analisando as correspondências entre Drummond
e Mário de Andrade, no ciclo de conferências em homenagem ao Centenário do nascimento de Carlos Drummond
de Andrade* – ressalta que
o poeta mineiro não cessará de urdir,
sabendo-não-sabendo, como é inerente à criação artística, o seu conflito de
estar-no-mundo. (...) Mário repara na luta entre o poeta, - “que é um ser de
ação pouca, muito empregado público, como ele mesmo o descreveu, - e as
exigências da vida social contemporânea que já vai atingindo o Brasil das
capitais, o ser socializado, de ação muita, eficaz pra sociedade, mais público
que íntimo, com maior raio de ação que o cumprimento do dever na família e no
empreguinho”. (Frota, 94)
As palavras de Lélia
misturadas às de Mário podem sugerir esse entre-lugar do poeta que, menos
contundente do que Mário de Andrade, acredito que esse “conflito de
estar-no-mundo” se configuraria mais em uma decepção em ver que o ideário
modernista não poderia ser concretizado em todo o seu esplendor, já que a vida
real se apresentaria de outra forma e alienar-se dela em uma totalidade seria
impossível.
Talvez essa mudança de
perspectiva possa ter relação com o poema Confidência do Itabirano:
Tive ouro, tive gado, tive fazendas.
Hoje sou funcionário público.
Itabira é apenas uma fotografia na
parede.
Mas como dói!
Possivelmente o poema
referido trata mais especificamente de uma tentativa de fuga do sofrimento, que
não está no lugar, mas na alma do poeta melancólico que mesmo afastando-se de
sua cidade natal, permanece desassossegado, porém, a ideia de que no início ele
era um poeta rico em seus pensamentos, em sua liberdade criadora, na tentativa
de rompimento com as estruturas impostas pela sociedade e agora se torna um
poeta pobre, um “funcionário público” por estar a serviço de uma construção
identitária, que, de certa forma, o engessa em suas atitudes e exige certa
adaptação à regra.
Mais uma vez recorro ao
texto de Reinaldo Marques, já que, talvez, o sentimento de desgosto se dê
“quanto aos rumos do poeta num mundo de relações mecânicas, num mundo caduco, a
inviabilizar um projeto de autêntica comunicação e comunhão da poesia com o seu
tempo, com os seus destinatários, com o povo” (Marques, 53).
Podemos concluir neste
breve trabalho que Drummond seria a “flor que nasceu na rua!”, que fez da
melancolia seu protesto, sua forma de questionar os poemas pobres, a vida
vazia. O poeta fora de seu tempo, capaz de aliar melancolia e esperança num só
poema, pois
Uma flor nasceu na rua!
Passem de longe, bondes, ônibus, rio de
aço do tráfego.
Uma flor ainda desbotada
ilude a polícia, rompe o asfalto.
Façam completo silêncio, paralisem os
negócios,
garanto que uma flor nasceu.
Para finalizar, ficamos com uma observação de
Otto Maria Carpeaux (O Jornal, 10 de
outubro de 1943) que sinaliza que Drummond faz “a poesia do tempo presente,
transformando qualquer ‘assunto’ em matéria poética, não é exclusiva, é
inclusiva. Transforma tudo em conceito poético” (Frota, 97)

