domingo, 13 de janeiro de 2013

O lugar do negro na literatura


(...) [N]a literatura culta – que o pobre não lê – ele não passa de figurante, sombra ao fundo, intruso que se mete na conversa (...)[1]
(Joel Rufino dos Santos).


Nos tempos atuais o negro tem tido maior visibilidade e passa a ser autor de sua própria história, sem intermediários, mas o que se percebe é que esse lugar de atuação ainda é um tanto limitado, pois há, evidentemente, um movimento de afirmação identitária que se dá através do fortalecimento das culturas e origens do negro ao longo da história.
Há uma sensação de que o escritor traz o personagem negro carregado de estereótipos que o aprisionam num mesmo lugar: no futebol, na favela, no samba, na malandragem, na pobreza... Qual o lugar do negro na sociedade e na literatura?
Em Bichos da Terra tão Pequenos, de Joel Rufino dos Santos – intelectual negro, empenhado em trazer para a literatura a “voz” negra por tanto tempo silenciada – o personagem principal, apelidado Vinquinho quando criança, era protagonista do meio onde vivia: em um lar pobre, filho de mãe solteira, numa família evangélica, que usava a esperteza para se “dar bem” em alguns momentos, enfim, o universo pelo qual circula é o que historicamente foi destinado ao negro.
Espero que esse período de afirmação da identidade negra se concretize e fortaleza a ponto de o negro poder caminhar mais livremente pelos ambientes a ele negados ao longo dos tempos. Que ele seja protagonista de sua história no morro, no asfalto; no futebol, na magistratura; no samba, na música clássica e que as fronteiras sejam derrubadas, caso contrário, “o sujeito-efeito que emerge clandestinamente se assemelha bastante ao sujeito ideológico generalizado do teórico”[2], como ressalta Gayatri C. Spivak, sobre o perigo de uma simples inversão de papel, que, para mim, serve para atentar ao perigo de se perpetuar as limitações impostas pelos aparelhos ideológicos a serviço do Estado sobre o lugar do negro na sociedade.
Por tudo isso, destaco aqui as considerações que Stuart Hall tece acerca das pessoas que pertencem a culturas híbridas e que precisam negociar com as muitas culturas a que tem contato, sem que, para isso, perca o contato com suas tradições:

Elas carregam os traços das culturas, das tradições, das linguagens e das histórias particulares pelas quais foram marcadas. A diferença é que elas não são e nunca serão unificadas no velho sentido, porque elas são, irrevogavelmente, o produto de várias histórias e culturas interconectadas, pertencem a uma e, ao mesmo tempo, a várias “casas” (e não a uma “casa” particular)[3].

Acho que essas “várias casas” devem ter suas portas abertas ao mundo, sem que haja nenhum tipo de impedimento que permita dizer ao mundo que o lugar do negro é todo e qualquer lugar. Como Exu “desordeiro em nome da Ordem, personificação (...) da dinâmica social, da existência individualizada etc.”[4], que

“teve o direito de se deslocar entre todos os deuses, entre estes e os mortais, entre os mortos e os vivos, entre os homens uns com os outros, horizontalmente, entre seres da mesma categoria; e, verticalmente, entre as diferentes categorias”. (SANTOS, 2010, p. 191)

A ideia de pureza, em qualquer estrato social, parece incoerente porque, nas palavras de Zygmunt Bauman:

A pureza (...) é uma visão da ordem — isto é, de uma situação em que cada coisa se acha em seu justo lugar e em nenhum outro. (...) — que ocorre serem aqueles lugares que elas não preencheriam “naturalmente” (...)[5].


E o autor ainda enfatiza que “[o] oposto da “pureza” — o sujo, o imundo, os “agentes poluidores” — são coisas “fora do lugar” (BAUMAN, 1998, p. 14). Restando ao novo escritor negro mostrar qual é o seu lugar, para assim, reafirmar a verdadeira identidade negra, livre das amarras que o prende a um passado repressor.




[1] SANTOS, Joel Rufino dos. Épuras do Social – Como podem os intelectuais trabalhar para os pobres. São Paulo: Global, 2004, p. 35.
[2]  Pode o subalterno falar?, 2010, pp. 25-26.
[3] HALL, Stuart. A identidade cultural na pós-modernidade. Tradução Tomaz T. da Silva, Guaracira L. Louro – 11 ed. Rio de Janeiro: DP&A, 2011, p. 89
[4] SANTOS, Joel Rufino. Bichos da terra tão pequenos. Rio de Janeiro: Rocco, 2010, p. 190.
[5] BAUMAN, Zygmunt. O mal-estar da pós-modernidade. Rio de Janeiro: Zahar, 1998, p. 14.

sábado, 12 de janeiro de 2013

Eutanázio em "Chove nos campos de Cachoeira"


Adiando os minutos para terminar o Chove. Não gostaria de deixar Eutanázio na minha frágil memória, apenas. Eutanázio, aliás, até o momento, foi o personagem que mais me causou estranhamento. Personagem instigante, sombrio, denso... A narrativa de Dalcídio Jurandir transcorre de maneira linear, dentro de certa naturalidade, até que surge uma pulsação forte na presença ascética de Eutanázio, este que busca a cura para seu sofrimento constante, suas angústias diante da vida por vias tortuosas. Implora, clama por socorro. Alguém que tenha a coragem de desligar os aparelhos de uma vida dolorosa.
Eutanázio busca no desamor de Irene, no mal-estar da casa de seu Cristóvão, nas humilhações diárias e perversas o sentido de um viver fadado à dor, à rejeição, ao descaso.
Há neste homem a vontade de gritar, quebrar a cara de quem lhe contraria, mas não tem coragem suficiente. Não tem coragem para desligar os fios que o mantém vivo. O máximo que consegue é se violentar mais, no desejo de manter-se podre, ao buscar em Felícia o sentimento de generosidade, de piedade. Mesmo que fosse

(...) [u]ma vingança contra si mesmo. Uma sede de degradação. (...) [T]eria de lutar contra a moléstia, seria agoniado e doloroso e Irene voltaria com um sabor de pus e sangue de Felícia, das feridas de Felícia. Afinal tinha apodrecido o seu orgulho e o sexo. (JURANDIR, 2011, p. 128)[1]


Eutanázio “engolia palavrões, raivas, nojos, as grandes náuseas de si mesmo”[2]. Vivia um conflito consigo mesmo e com o mundo.
Felícia, a doença carnal, na qual Eutanázio encontrou um porto ou um meio de abreviar a sua dor, compartilhando da possível doença da mulher que “cheirava a terra úmida, a terra dos caminhos pisada por todos os caminhantes”[3]:

Eutanázio, com pena, sentiu que ela não sabia mesmo se estava contaminada ou não. Mas ele tinha vindo da casa de Irene como um homem perdido. Se entregou à Felícia para corromper-se mais, e seria humilhar a pobre mulher se não ficasse com ela. Era degradá-la ainda mais. (JURANDIR, 2011, p. 25)

Irene, a doença da alma, que se instalou nele sabe-se lá quando e, desde então, vem o devassando. Irene é o vício de Eutanázio, a droga que o mantém respirando. Ele precisa da indiferença e repugnância dela:


Demônio, como coisa irreparável, acontecimento inevitável, caldeirão do mal, era Irene, sim. (...) Irene o abateu, cega e violenta como redemoinho. Tinha sido atingido por essa força da natureza que, no íntimo, era tranqüila e inocente. Irene era o caos dentro dele. (JURANDIR, 2011, p. 127)

E assim, vivia em sua morte lenta, constante. Talvez Eutanázio precisasse de um carocinho de tucumã, como o de Alfredo. A “[b]olinha mágica e infatigável”[4], que fazia as feridas cicatrizarem e que transformava mundos.


[1] JURANDIR, Dalcídio. Chove nos campos de Cachoeira. Rio de Janeiro: 7Letras, 2011.
[2] JURANDIR, 2011, p. 22
[3] Idem, p. 25
[4] JURANDIR, 2011, p. 134