sexta-feira, 2 de agosto de 2013

Epidemia

(Ridson)

Parte III

“Jornal Nacional”, a chamada anuncia a notícia:
Manifestantes entram em confronto com a polícia.
Eles tinham faixas e palavras de ordem.
Contra gás lacrimogêneo, cassetetes, tropas de choque.

Só que a câmara filmou só a revolta e a reação .
De quem no desespero atira pedra em vão.
E no bloco seguinte o que se viu, ouviu:
“Pesquisa prova: desemprego diminui no Brasil.”

Guetofobia: o poder intimida.
Chacinas na periferia cometidas pela polícia.
Manifestações pacíficas reprimidas na Paulista.
Difamações, mentiras pela tevê transmitidas.

Terrorismo: crime considerado hediondo.
Ato válido somente quando atinge o povo.
Promotor burguês censura a verdade.
Porque a função da televisão é a produção de fugas da realidade.

É do meu olhar que você tem medo.
Bonito terno, onde vive se escondendo.
Eu vi você erguer o vidro, acelerando.
Quase atropela o moleque trabalhando.

A pressão sobe, o coração acelera.
Alergia a pobre, pavor da favela.
Pesadelos, pânicos, inquietações, insônia.
Guetofobia: estes são os teus sintomas.

Ignoram as crianças viciadas e marginais.
Depois vão pras ruas em passeatas. “BASTA, EU QUERO PAZ.”
Paz morar longe de sem-teto.
Proteger o domínio no condomínio sem favela perto.

Que tem como herói um coronel Ubiratan.
Aprecia confortável nosso diário Vietnã.
Cães acostumados a apontar se farejam medo.
Entram em desespero, quando sentem o próprio cheiro.

Burguesia aplaude nossa calamidade.
São contra os direitos humanos, porque não têm humanidade.
Sua tolerância zero, limpeza social, justiça.
Sob a luz no meu verso, enxergo suas feições nazistas.

Da destruição de Palmares à ditadura militar.
Massacre do Carandiru, Eldorado dos Carajás.
O dinheiro comanda a execução sumária.
Esquadrões da morte, chacina da Candelária.

Sua idéia de paz é diferente da minha.
Sua paz inclui a escravidão da minha família.
Com o meu silêncio, meu consentimento.
Meu confinamento dentro de um gueto.

A paz que eu não aceito e rejeito é a paz dos guetos.
A paz capaz de te obrigar a ignorar o olhar de preconceito.
Aquela paz imposta por viaturas da ROTA.
Paz de escravos, paz de gente morta.

Mansões, reuniões, festas, drinks, caviar.
E na favela, nos barracos, algo começa a mudar.
O filho mostra à mãe o que ela nunca percebeu.
Porque nunca teve a oportunidade, não leu, não aprendeu,

A guerra prolifera, o levante da favela.
Não é uma ameaça, é uma promessa.
Promessa de terror, horror, incêndio.
Por isso, playboy, tenha medo.

É a saga do povo que agora se repete.
Onde houver injustiça sempre haverá um rebelde.
Eles têm medo de nós porque somos a maioria.
A burguesia sofre de guetofobia.

Extremamente, centro de terapia intensiva.
Tratamento de choque contra guetofobia.
Bisturi da cirurgia sem anestesia.
Extirpa o câncer da sua covardia, burguesia.

Literatura Marginal: talentos da escrita periférica (2005: 78-80).  

“Ridson Mariano da Paixão mora na favela do Jaqueline, na cidade de São Paulo, e pertence à família Extremamente, movimento de cordel urbano”. 

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